Sou Natural, não se assuste!

Por Rebecca Lockwood

Foto de Thomas Schaefer na Unsplash

Tenho uma verdadeira fascinação por taças com logomarcas de bares de vinho natural. Em cada lugar que visito, sinto aquela vontade de levar uma comigo, mas nem sempre é fácil — muitas vezes, elas não estão à venda. De vez em quando, tenho a sorte de ganhar uma. É irresistível! Também costumo colecionar garrafas de vinhos que gostei, a grande maioria com etiquetas lindas. Sou fã das etiquetas! Essa mania começou depois que descobri o vinho natural. Admiro profundamente as pessoas que compartilham dessa paixão.

Frequento esses bares pela experiência antroposófica… Tem algo espiritualizado nesse movimento do vinho natural como um todo. Sim, é profundo. É o mínimo não ter veneno!

Digamos que é com o vinho biodinâmico que começamos a falar de vinho a sério, mas é no natural que acredito que atingimos um ápice!

Tanto o vinho biodinâmico quanto o natural têm como base uma agricultura limpa, sem química nem agrotóxicos. Respeita-se a terra, o húmus — palavra que deu origem a “homo”, de sapiens.

O homem e todos os seres vão e voltam para a terra. O mínimo é não estragá-la.

O vinho natural vai além da vinificação e inclui práticas de agricultura natural também. Em termos de agricultura, muitos produtores de vinho natural preferem métodos orgânicos ou biodinâmicos para cultivar as uvas, evitando pesticidas e fertilizantes sintéticos. Isso significa que a agricultura natural ou ecológica é fundamental para o vinho natural, pois contribui para a criação de um ecossistema saudável nas vinhas, promovendo a biodiversidade e a resiliência natural das plantas.

Foto de Maja Petric na Unsplash

Na prática, a agricultura natural visa manter o solo vivo e saudável, ajudando a planta a crescer em harmonia com o ambiente. Ela foca em técnicas como adubação natural, compostagem, e, em alguns casos, até o uso de coberturas vegetais para melhorar a qualidade do solo. Assim, o conceito de “natural” cobre tanto a produção de uvas quanto o processo de vinificação. Em ambos, não se adicionam leveduras. Só as naturais, dos fungos do terroir, que vêm da uva, do carvalho do tonel, do ambiente.

O vin nature, a grande estrela do momento, chega com pouca ou nenhuma intervenção. Não é à toa que é chamado de vinho natural, puro, livre, honesto, nu, real, de verdade. Sim, ele é punk, funk, efervescente e vibrante também.

Não estou sozinha; o consumo e os admiradores crescem de maneira exponencial. Em Paris, vemos uma revolução com a multiplicação de bares, mercados e restaurantes que o vendem. Por aqui, não faltam opções. No Brasil também já chegou!

Mas, se eu te dissesse que o vinho natural é o vinho que sempre se fez? Esse vinho chamado convencional tem só 100 anos. Sim, o vinho natural é o verdadeiro vinho, feito como antes da revolução química do século XX. Nada mais que o que já era feito há 8 mil anos pelos georgianos, berço do vinho.

E é gostoso! Quem já provou sabe: depois que você experimenta, não tem como voltar aos vinhos chatos de supermercado — esses conhecidos como vinho morto, estável, técnico, comercial, de prateleira, de manual, padronizado, certinho.

O vinho natural não é só uma bebida, é um movimento. É uma semente de liberdade que brota em resistência à industrialização massiva. A vinificação é feita sem aditivos ou correções artificiais e, no máximo, com uma mínima adição de sulfito no engarrafamento. Muitos nem isso fazem — são sucos fermentados puros.

E as etiquetas? Nada de castelos ou brasões sem graça — as garrafas de vinho natural são verdadeiras obras de arte. Coloridas, provocativas, engraçadas, elas fazem rir antes mesmo de abrir a garrafa. As mensagens que trazem dialogam com o público e mexem com suas emoções. Uma etiqueta pode trazer um gato montado em um unicórnio com uma crina arco-íris LGBTQ+. Ou ter sido feita por um artista plástico, cartunista, e por aí vai. Pode indicar uma música ou um filme, pode até te sugerir que beba pelado. A imaginação não tem limite! A cor desses vinhos é uma coisa à parte. Uma paleta vibrante de tons e nuances, um Pantone de possibilidades. Entre o branco e o tinto, há dezenas de variações: laranja, ouro, bronze, salmão e agora o vinho preto. Cada gole leva seus sentidos a novos lugares, e seu paladar é surpreendido por sabores únicos que você jamais imaginou existir. E se acha que não vale a pena guardar, está enganado.

Muitos vinhos naturais amadurecem bem nas adegas.E, claro, as pessoas que fazem e vendem esses vinhos geralmente são interessantes, festivas e do tipo que você adoraria conhecer. São os verdadeiros amigos do planeta, os eco-políticos do momento, os artistas da terra.

Esses produtores são verdadeiros rebeldes, criando vinhos sem certificação oficial. A indústria tradicional não está feliz — os vinhateiros desafiam as normas. Hoje, são mais de 2.000 produtores na França, e mesmo que o termo “vinho natural” não esteja no rótulo, é possível identificar essas garrafas só de olhar.

E, se ainda houver dúvida, basta ir aos bares certos e provar!

Este ano, participei das vindimas durante o verão aqui na França, e fiquei encantada com a beleza das vinhas e o trabalho árduo de tantas pessoas dedicadas à colheita, maceração e fermentação das uvas. Cada variedade dá origem a um vinho único, e as combinações são criadas por enólogos talentosos. É um trabalho árduo, mas muito divertido. Onde passei, havia música, comida e, claro, muito vinho para beber! Acredito que o vinho natural é uma bebida solar, ideal para ser consumida até nos países mais quentes. Alguns vinicultores até tocam música durante a fermentação, como uma forma de inspirar as leveduras com poesia. Sim, até isso acontece no mundo do vinho natural.

Receita de vinho

Tentei desesperadamente, exagerando, pedir aos produtores a receita do vinho que estavam fazendo ou que fizeram.. Eu como chef, me interesso pelo vinho porque é uma forma de cozinha, pela fermentação. A primeira forma de cozinhar é a fermentação e não é só o homem que faz. Vários animais fermentam suas comidas para tirar mais nutrientes, são cultivos , como as formigas, que agrupam folhas, , cultivando cogumelos e comem os cogumelos. O vinho também se faz com leveduras,, cogumelos. O vinho é um fermento. E será que tem receita?

Receita do David

É um desafio à altura da questão: transformar os açúcares do suco de uva em vinho e não em vinagre. Brindar com um copo de vinagre é, de fato, bem menos aconchegante, unificador e, ousamos dizer, agradável. Essa transformação, ao mesmo tempo delicada e selvagem, é o trabalho de uma infinidade de leveduras singulares e de bactérias muito úteis.

Durante essa festa disputada, as leveduras liberam principalmente CO2 (as bolhas), etanol (o álcool no vinho) e produzem calor (assim como nós quando digerimos!). Isso é a fermentação alcoólica.

Um Pétillant Naturel é um vinho que foi engarrafado durante o processo de fermentação. Nossos amigos micro-organismos terminam de consumir os açúcares dentro da garrafa. As bolhas ficam presas na garrafa: o vinho borbulha naturalmente!

Vinho tem receita de fazer vinho. Sobretudo tem sonografia tês auê não se deve botar!