Sendo a cozinha um ato político, será possível determinar se uma pessoa é de direita ou esquerda pelas receitas que escolhe colocar à mesa?

 

 

 

Na França uma nova polêmica tomou as páginas dos principais jornais porque como no Brasil, estamos em véspera  de eleição presidencial.

Em oposição ao prato Couscous Royal que está no top do ranking das receitas preferidas dos franceses há anos e é considerado um prato de origem marroquino pela maioria das pessoas,o pessoal de direita resolveu eleger o Steak Frites (bife com batatat frita) como o prato símbolo

da resistência da cultura francesa. Recusar comer couscous é uma forma de protesto contra a imigração e virou o statement da extrema direita. Só que, olha que ironia, apesar do couscous, sim, ser de origem árabe, a receita do Couscous Royal, onde se mistura várias carnes, na verdade foi criada na França mesmo.

Outra receita apropriada pela direita é o jambon beurre ( sanduíche de presunto e manteiga no pão baguete). Isso porque qualquer receita que tem porco ou vinho já exclui boa parte dos muçulmanos que não comem este animal nem tomam álcool.

Será que isso faz sentido isso? E no Brasil temos como comparar?

É normal associar comidas com posições políticas já há muito tempo. Nas últimas eleições, quem comia coxinha era de direita e quem prefere um sanduíche de mortadela era de esquerda. Pois quem não lembra do apelido dado aos policiais acusados de violência nas passeatas era de coxinha porque gostavam de comer uma coxinha na hora do lanche, e o pessoal da esquerda mortadela porque era o sanduíche distribuído para quem participasse das manifestações contra o crescimento da extrema direita.

Para a jornalista Rosângela Malletti, brasileira e radicada em Paris, que iniciou uma pesquisa nesse assunto, a polêmica de comida da direita e comida da esquerda é real, um assunto delicado, possível de análise, mas que tem que se ter um certo cuidado para afirmar qualquer coisa. Durante a pesquisa dela ela me encomendou um bolo de milho assado na palha porque sabia que em um almoço brasileiro, todo mundo traria um sobremesa com leite condensado..

Para a chef de cozinha Marina Stroh, dona de La Brigaderie de Paris, isso tudo é mais uma forma de comunicação, uma maneira de falar com as massas, não é real e é mais a escolha dos produtores engajados numa produção sustentável ou não que definiria uma posição política. Ela por exemplo só utiliza chocolate de pequenas comunidades eco sustentáveis.

Para o escritor francês Christophe Duchatellet que está para lançar um livro da sua residência na Guiana Francesa, ele acha que a escolha dos ingredientes éticos é o que define uma cozinha de esquerda, mas ao mesmo tempo que, sim, existem certas receitas que são de origem burguesa tradicional francesa, tendendo à direita, e outras que seriam mais da vanguarda crítica ao sistema, uma cozinha utopista, mais artística, tendendo à esquerda.

Já para o artista plástico francobrasileiro, Roberto Cabot, a comida de direita é a mais elitista, exclusiva, e a de esquerda a comida acessível a todos. Será? O conceito de direita e esquerda surgiu na França durante a revolução francesa. Do lado direito do rei sentavam os conservadores. Do lado esquerdo, os contestadores. Então é mais que normal que esse tipo de papo ainda esteja vivo por aqui.

Pensando nessa polêmica preparei uma lista de perguntas e respostas sobre o assunto adaptado para o Brasil.

Vamos lá:

Pergunta: Quem come camarão é o quê?

Resposta: no contexto atual, de esquerda.

No Brasil, o herói da esquerda virou o camarão apesar de ser um ingrediente caro. Primeiro, houve a polêmica do ator e diretor Wagner Moura comendo camarão num assentamento do Movimento Sem Terra, amplamente criticado pela família Bolsonaro. O prato em questão era o camarão da receita do acarajé. A resposta do MST foi que quem gosta de pobrecomendo osso é a direita.

Logo depois, foi exatamente por comer um camarão, que caiu mal, que o presidente Bolsonaro acabou hospitalizado.

Então se você é de esquerda, talvez queira cair de boca noacarajé e no bobó de camarão este ano!

Pergunta: Comer brigadeiro é ser de direita?

Resposta: era

O doce preferido do brasileiro surgiu para uma campanha presidencial entre os militares. Associado ao leite condensado e à supremacia masculina branca. Houve muita campanha da

indústria do leite que queria introduzir o leite condensado e que por isso conseguiu modificou muitas das receitas tradicionais brasileiras e nessa, veio o brigadeiro.

Mas o que não veio de fora, no Brasil, só mesmo a comida indígena que mesmo assim também já sofre influências. É impossível duas culturas não se misturarem quando se encontram.

A cultura é viva. A culinária idem.

Em comparação à França por exemplo, se a gente pensar na posição geográfica deste país, centro da Europa, desde antes da sua fundação como tal, o território sempre foi um lugar de passagem e de mistura, assim como o Brasil. Sua culinária também sofreu muitas influências de vários povos, assim como a culinária brasileira. Não existe uma culinária exclusiva francesa, assim como não existe uma culinária exclusiva brasileira.

Pergunta: A esquerda pode comer caviar?

Resposta: sim

A expressão esquerda caviar surge com a ideia de que uma pessoa odeia a burguesia masadora o estilo de vida dela. Este apelido surgiu na França e encontra expressões similares emoutras línguas : esquerda champagne, na Inglaterra, esquerda festiva, no Brasil, limousine libéral, nos Estados Unidos, radical chic, na Itália, ou socialista de salão, na Alemanha.

É uma expressão pejorativa, que define pessoas com ideias socialistas mas que não abrem mão de uma vida de luxo e glamour. 

Mas desde quando alguém precisa ser pobre para ser de esquerda? A expressão esquerda caviar é sem dúvida moralmente duvidosa. Quem defende esta ideia procura disseminar o medo do pensamento socialista. A esquerda não deseja pobreza para todos como dizem.

A esquerda deseja abundância e prazer para todos, isso sim. Um pouco como disse Lula, « todos têm direito a tomar o café da manhã, almoçar e jantar no Brasil.»

E na França, todos deveriam ter direito a comer brioche e beber champagne. Por isso, pasmem, houve a revolução francesa.

Pergunta: Comer em restaurante é coisa de direita?

Resposta: não

Pelo contrário, comer em restaurante é coisa de esquerda. A revolução francesa foi a responsável pelo surgimento dos primeiros restaurantes no mundo.

E o que é um restaurante?

É um lugar que você tem acesso a comida toda e acesso ao serviço personalizado, desde que se pague, exposto num cardápio, assim como era servido no palácio real em Versalhes, antes da revolução, mas somente para o rei e para a corte.

Comer em restaurante é a democratização do acesso à comida, disponível para todos. Por isso que antes da revoluçãofrancesa havia um restaurante em Paris e, em dois anos, eram mais de dois mil.

Agora isso não significa que certos restaurantes representem alas da direita. Em Paris, o QG da candidata Marine Le Penn era um restaurante que servia choucroute.

No Brasil, igualmente certamente existem restaurantes que acolhem o pessoal de direita. Assim como alguns devem reunir os pessoal da esquerda.

Pergunta: Comer em restaurante de luxo é coisa de direita?

Resposta: não exatamente.

Aqui na França, mas também no Brasil, muitos restaurantes ganham estrelas. E o critério número um, além claro de uma ótima execução técnica na hora de preparar um prato, é a escolha dos ingredientes que devem dizer a origem e devem ser de primeira. A preocupação ecológica e sustentável está entre esses critérios chamados de primeira. Ser local e sazonal é fundamental. Então, ao se comer num restaurante estrelado, o cliente tem acesso a lista de produtores e a garantia de que não está fazendo mal ao planeta.

Uma nova lei que acaba de ser aprovada na França obriga os restaurantes a colocarem no menu a origem das carnes. Isso tem preocupado muita gente que não segue os critérios dos restaurantes estrelados, que prefere importar de longe produtos baratos, sem garantia de qualidade, somente pelo preço. Esta nova regra está sacudindo o mercado por aqui.

Pergunta: Ser vegano é ser de esquerda?

Resposta: depende

Ter consciência da origem do ingrediente que se escolhe para comer e conhecimento sobre a cadeia de distribuição é pensar em ecologia, no direito dos animais, nos direitos humanos, no feminismo, no vegetarianismo, na energia reciclável, ou seja, pensamentos que estão ligados à agenda da esquerda que por natureza é crítica ao sistema.

O veganismo também surgiu criticando a indústria alimentar que explora e massacra bilhões de animais todos os anos. Tirar a carne do prato, ou qualquer produto animal, até o mel, nasce como um protesto, desejo de mudança, esperança para um mundo melhor. Mas será que todo vegano é de esquerda? Não, de fato, hoje, existe uma boa parte da extrema direita que se apropriou desse movimento e não associa o capitalismo ao problema. Os veganos de direita não vão à raiz da questão porque não os interessa. Existem mesmo os fascistas que se acham superiores por conseguirem seguir esta dieta, afinal, até Hitler era vegetariano.

Pergunta: Pode uma pessoa ser uma ativista e comer nutella?

Resposta: complicado mas tem solução

Essa expressão debochada, nasce da diferença entre ser raiz ou nutella. Enquanto umapessoa é de raiz, ela é autêntica e uma pessoa nutella adora privilégios. Mas também surge da ideia pejorativa de que muitos ecologistas defendem, por exemplo, a preservação da Amazônia, mas comem nutella que destrói as florestas na Ásia com o óleo de palma industrial.

A Verdade é que o óleo de palma industrial, transparente e refinado,que nada tem a ver com o azeite de dendê da fruta, está mesmo acabando com as florestas na Ásia. Mas existem muitos outros produtos como a nutella que não utilizam esse óleo de palma refinado. Vale a pena ler as embalagens para escolher o bom produto, sem esse óleo de palma industrializado, afinal todos temos direito de comer essa deliciosa pasta de chocolate e avelã e ainda assim defender o planeta.

Pergunta: A caça é apoiar a extrema direita?

Resposta: sim

Na Europa, a caça é tida como desnecessária e cruel. Hoje as pessoas caçam por esporte e não por necessidade. Os ecologistas querem proibir. Mas explicar isso a um indígena brasileiro que vive da caça, assim como lhe impor uma filosofia vegetariana, é um pouco mais complicado. Eles caçam sim mas tem outra filosofia. Para o índio não existe diferença entre um animal e um humano, para eles estão todos dotado do mesmo espírito. Mas para um europeu, ou um brasileiro que vive na cidade, para quê caçar? Também é super perigoso, nos últimos vinte anos na França morreram 450 pessoas por acidente de arma de fogo durante a caça..

O steak-frites dos franceses, e até o vinho, está associado à virilidade, assim como o churrasco de Trump nos EUA. A carne como o vinho são parecidos porque tem a imagem do sangue edominação pela força. Mas já só frites, só as batatas fritas, sem o steak, é outra coisa. A batata frita é um herói na França. Por isso que combinado com outra coisa como mexilhão, vira bem de esquerda.

Pergunta: Existe uma comida de direita e outra de esquerda?

Resposta: sem resposta

A comida é um objeto formidável, passa pela poesia, sociologia, geopolítica e química. Como disse o filósofo francês Roland Barthes, uma receita é um cinema, um universo de imagens, com linguagem própria, e uma mitologia a ser desconstruída. E essa desconstrução leva para mudanças na semântica da comida. A batata foi considerada venenosa na França até o século XVII . O açúcar para um francês é um relacionamento, e com o brasileiro outro significado, outro gosto, outro paladar. E isso vai variando ao longo do tempo.

Os gostos que nós adotamos para viver em grupo são construídos por ideologias que se alojam em todo lado, não somente no socialismo, mas também no consumismo, nazismo, liberalismo,se aloja também nos objetos e também nas receitas. O que existe é um discurso construído em oposição ao que é natural. O saber do sabor pode ser virada para direita e pode ser virada paraesquerda e, depois, ainda mudar de lado.

 

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